Meus bons amigos, onde estão?,canta o velho Frejat. Talvez essa seja uma das grandes indagações de hoje. Onde estariam aqueles que por muito ou pouco tempo conviveram conosco e marcaram profundamente as nossas vidas num dado momento de nossas histórias?
Amizade não é coisa de hoje. É coisa antiga. Desde os primórdios da humanidade, o ser humano se mistura, coopera, estabelece princípios, contratos, conveniências. Desde tempos remotos, as pessoas procuram outras pessoas para dividirem seus problemas e alegrias (mais problemas do que alegrias, diga-se de passagem), suas frustrações, mágoas, inspirações. Não há nada de mal nisso. É perfeitamente normal que o tão imperfeito ser humano anseie por se aliviar nas perfeições ou nas imperfeições dos outros. É natural buscar na amizade uma parte de nós que, ainda viva, só se reflete no outro.
Para alguns, fazer amigos é um problema. Nem todos estão preparados para serem bons. Nem todos estão preparados para arriscarem uma frustração relacional, uma desilusão. Outros tem medo do abandono, do esquecimento, ou mesmo das angústias, dos ciúmes. Claro, obviamente amigos também sentem ciúmes. Há os preferem se omitir, se privar diante de todas essas possibilidades. Fazer amigos pode ser uma grande aventura, até porque assim como nem todos sabem fazer amizades muito poucos são os que sabem ser amigos, grandes amigos.
De fato, mais difícil do que fazer amigos é manter uma amizade. Saber quando abrir e quando não abrir mão. Saber quando ser sincero e quando não ser. Porque nem só de grandes verdade vive uma grande amizade. Saber quando proteger e quando entregar à própria sorte. Saber quando estar junto e quando se afastar. Saber ouvir. Saber deixar de ouvir. Quem seria capaz de equilibrar tantas habilidades? Quem seria capaz de dominar tal ciência da convivência? Ninguém, mas a tentaiva é a alma do negócio. O aprendizado é a grande recompensa.
O que faz os grandes amigos é a capacidade que eles tem de estarem vivos. Uma amizade é grande enquanto é viva, próxima; enquanto ainda desperta sensibilidade, confiança. Os grandes amigos estão por aí, mas muitas vezes as grandes amizades se perdem. Grandes amigos podem existir para sempre, mas as grandes amizades muitas vezes não os acompanham. Os lastros das histórias pessoais separam. Os rumos no tempo e no espaço. Tudo. E os grandes amigos estão por aí. E quando menos se espera, as grandes amizades se perderam.
Diante do paradoxo dos amigos eternos e das amizades finitas, resta-nos uma lição importante: talvez não existam grandes amigos, apenas grandes momentos de amizade. Se assim for, o que nos resta é sermos o mais amigos que as circunstâncias nos permitirem. Não se pode pensar em ser amigo no futuro, nem apenas nas cinzas dos bons momentos do passado. As grandes amizades existem agora. Agora. Elas existem quando há diálogo, proximidade e afeição sincera. Sejamos amigos, sobretudo da vida. Sejamos amigos do mundo durante todos os momentos de amizade. O tempo passa, a distância amassa, e as amizades desaparecem na prática, tornam-se artefatos de memória. Perspectivas de novas amizades.

