quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A Verdade da Mentira


Seria reducionismo dizer que a mentira é o tema da semana. A mentira é um tema universal e atemporal. De um modo geral, ela faz parte da vida de quase todo mundo. O leque cobre desde inverdades simples e inofensivas a ficções mirabolantes só possíveis no universo de pessoas poquíssimo dotadas de senso moral ou de sanidade mental.

Duas situações básicas levam uma pessoa a mentir. Ou ela mente em benefício próprio e/ou em detrimento do outro, consciente de que está contando uma inverdade, ou mente por insanidade, por desequílibrio.

Há pouco tempo assisti a um documentário interessantíssimo sobre a americana Tania Head, que se tornou nos primeiros anos após o 11 de Setembro a mais célebre sobrevivente do ataque às Torres Gêmeas. Sua história de superação e perda - enquanto ela fugia, ferida, do 78º andar da torre sul, o noivo, David, morria na torre norte - chegou a milhares de pessoas no mundo todo. Depois de sucitar compaixão no mundo inteiro, ela foi desmascarada. O rostinho de coitada traumatizada pela perda desmoronou frente a uma série de verdades incontestáveis, dentre as quais figuram o fato de ela nunca ter sido casada, completamente desconhecida da família do noivo, e de nem sequer estar presente em NY quando as Torres Gêmes foram destruídas. O título do documentário foi bastante sugestivo “A impostora”!

Um outro caso que obteve repercussão mundial foi o da advogada brasileira Paula Oliveira, 26, que afirmou ter sido agredida por um grupo de neonazistas ao sair de uma estação de trem nos arredores de Zurique, na Suíça. Grávida de três meses, Oliveira teria sido espancada, o corpo cortado por estiletes, e teria ainda perdido os bêbes. Mais tarde, constatou-se que se tratava de um conjunto de inverdades. Não houve agressão por parte de ninguém que não fosse ela mesma, não havia bêbes ou nenhuma outra verdade naquela história. Ela simplesmente mentiu para chamar a atenção.

Os dois casos são emblemáticos e ilustram os dois ramos básicos da escola da mentira. A americana mentiu em benefício próprio, visando à popularidade, compaixão, piedade, mas foi burra ao achar que sua história não seria averiguada. Já a brasileira, provavellmente tenha mentido movida por algum distúrbio mental seríssimo. Esquizofrênicos, por exemplo, mentem e acreditam em sua mentira. Aliás, para usar os termos mais adequados, eles criam uma realidade fictícia para o resto do mundo e passam a vivê-la.

Bem, não nos cabe discurtir a fundo questões que só a sociologia ou a psiquiatria poderia esclarecer com precisão, mas uma coisa é certa: a mentira tem prazo de validade – como demonstraram as duas histórias citadas.

Na hora certa, tanto a mentira quanto o mentiroso pagam tributo à sociedade pelos efeitos nocivos de suas atitudes. Quando isso acontece, a casa cai. Descrédito, suspeitas de insanidade, exclusão. São penas que a opinião pública costuma impôr. No final das contas, ao menos por compaixão, só nos resta desejar que para estas pessoas exista um “céu” de verdade elas conseguiram apenas construir um mundo de mentiras.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Casa de Espelhos


O garoto desligou o contador e riu. Quando percebeu que estava sendo espiado, entrou em pânico e disparou rumo à sua casa. Alguns instantes depois, o mesmo garoto, novo, uns onze anos ainda, mexia num orelhão na rua. Aparentemente passava um trote, dessa vez se incomodou menos e continuou. Cheguei a planejar algum susto, mas imediatamente reconsiderei. Seus pais provavelmente não faziam idéia das peraltices do moleque, ou talvez fizessem, mas em todo caso, por algum motivo, o garoto estava solto na rua.


Fiquei um tanto acrabunhado. Aquele garoto poderia estar fazendo tantas outras coisas. Coisas que lhe repercutissem positivamente sobre o futuro. Coisas que lhe pudessem dar frutos. Talvez a escola. Ou um livro em casa. Quem sabe um programa educativo na Tv. Ou mais, o dito poderia estar dedicando seu tempo ao aprendizado de qualquer outra coisa que não fosse incomodar os outros. Entretanto, a natureza assim preferiu. Enquanto tantos outros estão produzindo há os que se doam à destruição.

O garoto do contador é, em síntese, espelho de uma parcela da sociedade que por mais que se encontre diante de possíveis ocupações, não se ocupa com nada. São as pessoas que seguem ao pé da letra a escola da chamada “falta do que fazer”. A escola que não dá descanso a seus alunos. Na verdade, não é que falte o que fazer. As pessoas é que, ou escolhem não fazer nada ou escolhem as coisas erradas para fazer.

O garoto do contador é uma metáfora, uma espécie de representação hiperonímica de tantas pessoas que vivem optando pelo improdutivo, pelo primário, pelo imediato. Pessoas que vivem para desestabilizar outras pessoas, conturbar ambientes. Pessoas que brincam com a tranquilidade alheia porque não tem paz, projetos, nem educação. O bom moleque é apenas um reflexo claro de uma sociedade que privilegia a formação do jovem no papel, nos palanques eleitorais, nos dicursos demagógicos.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Amizade: momentos de amizade.



Meus bons amigos, onde estão?,canta o velho Frejat. Talvez essa seja uma das grandes indagações de hoje. Onde estariam aqueles que por muito ou pouco tempo conviveram conosco e marcaram profundamente as nossas vidas num dado momento de nossas histórias?
Amizade não é coisa de hoje. É coisa antiga. Desde os primórdios da humanidade, o ser humano se mistura, coopera, estabelece princípios, contratos, conveniências. Desde tempos remotos, as pessoas procuram outras pessoas para dividirem seus problemas e alegrias (mais problemas do que alegrias, diga-se de passagem), suas frustrações, mágoas, inspirações. Não há nada de mal nisso. É perfeitamente normal que o tão imperfeito ser humano anseie por se aliviar nas perfeições ou nas imperfeições dos outros. É natural buscar na amizade uma parte de nós que, ainda viva, só se reflete no outro.
Para alguns, fazer amigos é um problema. Nem todos estão preparados para serem bons. Nem todos estão preparados para arriscarem uma frustração relacional, uma desilusão. Outros tem medo do abandono, do esquecimento, ou mesmo das angústias, dos ciúmes. Claro, obviamente amigos também sentem ciúmes. Há os preferem se omitir, se privar diante de todas essas possibilidades. Fazer amigos pode ser uma grande aventura, até porque assim como nem todos sabem fazer amizades muito poucos são os que sabem ser amigos, grandes amigos.
De fato, mais difícil do que fazer amigos é manter uma amizade. Saber quando abrir e quando não abrir mão. Saber quando ser sincero e quando não ser. Porque nem só de grandes verdade vive uma grande amizade. Saber quando proteger e quando entregar à própria sorte. Saber quando estar junto e quando se afastar. Saber ouvir. Saber deixar de ouvir. Quem seria capaz de equilibrar tantas habilidades? Quem seria capaz de dominar tal ciência da convivência? Ninguém, mas a tentaiva é a alma do negócio. O aprendizado é a grande recompensa.
O que faz os grandes amigos é a capacidade que eles tem de estarem vivos. Uma amizade é grande enquanto é viva, próxima; enquanto ainda desperta sensibilidade, confiança. Os grandes amigos estão por aí, mas muitas vezes as grandes amizades se perdem. Grandes amigos podem existir para sempre, mas as grandes amizades muitas vezes não os acompanham. Os lastros das histórias pessoais separam. Os rumos no tempo e no espaço. Tudo. E os grandes amigos estão por aí. E quando menos se espera, as grandes amizades se perderam.
Diante do paradoxo dos amigos eternos e das amizades finitas, resta-nos uma lição importante: talvez não existam grandes amigos, apenas grandes momentos de amizade. Se assim for, o que nos resta é sermos o mais amigos que as circunstâncias nos permitirem. Não se pode pensar em ser amigo no futuro, nem apenas nas cinzas dos bons momentos do passado. As grandes amizades existem agora. Agora. Elas existem quando há diálogo, proximidade e afeição sincera. Sejamos amigos, sobretudo da vida. Sejamos amigos do mundo durante todos os momentos de amizade. O tempo passa, a distância amassa, e as amizades desaparecem na prática, tornam-se artefatos de memória. Perspectivas de novas amizades.