quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Casa de Espelhos


O garoto desligou o contador e riu. Quando percebeu que estava sendo espiado, entrou em pânico e disparou rumo à sua casa. Alguns instantes depois, o mesmo garoto, novo, uns onze anos ainda, mexia num orelhão na rua. Aparentemente passava um trote, dessa vez se incomodou menos e continuou. Cheguei a planejar algum susto, mas imediatamente reconsiderei. Seus pais provavelmente não faziam idéia das peraltices do moleque, ou talvez fizessem, mas em todo caso, por algum motivo, o garoto estava solto na rua.


Fiquei um tanto acrabunhado. Aquele garoto poderia estar fazendo tantas outras coisas. Coisas que lhe repercutissem positivamente sobre o futuro. Coisas que lhe pudessem dar frutos. Talvez a escola. Ou um livro em casa. Quem sabe um programa educativo na Tv. Ou mais, o dito poderia estar dedicando seu tempo ao aprendizado de qualquer outra coisa que não fosse incomodar os outros. Entretanto, a natureza assim preferiu. Enquanto tantos outros estão produzindo há os que se doam à destruição.

O garoto do contador é, em síntese, espelho de uma parcela da sociedade que por mais que se encontre diante de possíveis ocupações, não se ocupa com nada. São as pessoas que seguem ao pé da letra a escola da chamada “falta do que fazer”. A escola que não dá descanso a seus alunos. Na verdade, não é que falte o que fazer. As pessoas é que, ou escolhem não fazer nada ou escolhem as coisas erradas para fazer.

O garoto do contador é uma metáfora, uma espécie de representação hiperonímica de tantas pessoas que vivem optando pelo improdutivo, pelo primário, pelo imediato. Pessoas que vivem para desestabilizar outras pessoas, conturbar ambientes. Pessoas que brincam com a tranquilidade alheia porque não tem paz, projetos, nem educação. O bom moleque é apenas um reflexo claro de uma sociedade que privilegia a formação do jovem no papel, nos palanques eleitorais, nos dicursos demagógicos.

Nenhum comentário: